sexta-feira, 15 de junho de 2012

Vida de caracol

Confesso que, depois de 3 anos a andar quase literalmente com as casas às costas, a vontade de fixar-me começa a tomar um peso muito grande nas minhas perspectivas futuras. Agora que está prestes a chegar a altura em que será obrigatório tomar algumas decisões, não consigo não perder algum sono à custa disto. Em três anos assentei em 4 cidades diferentes durante períodos de tempo demasiado curtos para serem suficientes e demasiado longos para não criar afectos, excepto quando falo do Funchal, que me fez menina, moça e mulher. Portanto, Funchal, Coimbra, Varsóvia e Porto somam-se na construção daquilo que sou hoje. Antes de me alongar, cito Charles Dickens (Tale Of Two Cities):
"It was the best of times, it was the worst of times, it was the age of wisdom, it was the age of foolishness, it was the epoch of belief, it was the epoch of incredulity, it was the season of Light, it was the season of Darkness, it was the spring of hope, it was the winter of despair, we had everything before us, we had nothing before us"

Foram três anos de circunstâncias que agora parecem chegar ao fim com sabor agridoce. Foram muitas despedidas, muitos reencontros, muitas contagens decrescentes para algo, muita vezes a desejar que o tempo não passasse.

Coimbra

Não é apenas uma cidade cortada a meio pelo Mondego. É a terra que acolheu um dos maiores amores de Portugal - o de Dom Pedro e Inês - e que acolhe, de certeza, outros tantos amores e paixões desenfreadas que aconteceram no abrigo daquele nosso rio. É a terra dos doutores que os viu chegar ainda meninos tímidos às suas colinas urbanas. As vezes que te subi e desci, Coimbra. Deves-me muitas solas de sapatos e eu devo-te o melhor período da minha vida. O melhor não. O mais rico. "Partimos a sorrir".

Varsóvia

As feridas foram reais. Os teus graus negativos marcaram-me o corpo, e os cinco meses que ai vivi marcaram-me a alma. A ter que escolher um local que tenha sido um pouco de tudo, escolho-te a ti, minha menina-cidade. Foste distância, foste conforto, foste a ressaca de uma grande paixão, foste sítio de luto quando a enterrei. Obrigaste-me a comunicar através de gestos, mostraste-me como uma cidade arrasada pelo comunismo ergueu-se de novo e proporciona aos seus habitantes uma vida melhor do que a que eu conheci aqui, em Portugal. Ainda me lembro quando me perguntaram "Então mas vais para um país de 3º mundo?"... Não podiam estar muito mais enganados. Mulheres lindíssimas, parques enormes a meio da cidade, esplanadas a tomar controlo dos passeios mal despontaram os primeiros raios de sol de uma verdadeira Primavera... Oh, fomos tão felizes juntas, minha Varsóvia.

Porto

A cidade que tomou conta da minha vontade e que, a partir dai, não me deixou desejar outra coisa. Foste tanto ou mais do que aquilo que sempre esperei de ti. As pessoas, as calçadas, as ruas... Nada falhou. Agora, a queimar os últimos cartuchos, confesso o desejo secreto de voltar... E ficar. Um futuro aqui parece tão possível que chega a ser quase impossível pensar não voltar. Um bom dia tripeiro é bem capaz de ser a melhor coisa que existe.

Apesar de andar cansada das palavras adeus e saudades, não sei se consigo voltar a outra condição."Porque eu só estou bem/ Aonde não estou/ Porque eu só quero ir/ Aonde eu não vou"

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