
O meu amigo cozinhava, pintava, tocava guitarra, bateria e discursava sobre a maioria dos temas que estivessem em discussão. Não nasceu sem abrigo nem cresceu como tal
(Crónica publicada no P3, projecto do jornal Público)
Aquela que era para ser uma corrida normal tornou-se num momento de reflexão e de analepse. Na mão cheia de vezes que passei a correr por aquela praça, ainda não tinha visto nenhum sem-abrigo a dormir lá, em pleno jardim, quanto mais um casal. Um cobertor cobria as suas caras, por razões que não importa tentar perceber, porque não contribuem para a solução deste problema – a pobreza extrema.
Quase instantaneamente, lembrei-me de uma pessoa com quem tive a sorte de me cruzar. Um iraquiano de Bagdade mostrou-me o que é ser um sem-abrigo não tão infeliz. Em simultâneo, conheci uma pessoa cujo maior vício (o álcool) a impedia de ser mais do que já era. O meu amigo cozinhava, pintava, tocava guitarra, bateria e discursava sobre a maioria dos temas que estivessem em discussão. Não nasceu sem abrigo nem cresceu como tal. Fugiu de uma guerra. Disse-me que preferia viver nas ruas coimbrãs, aonde chegou em 1999, do que ter quatro paredes numa cidade bombardeada. É um sobrevivente. Não tanto de uma guerra, mas mais de um divórcio.
Vi-o oscilar entre a embriaguez e a sobriedade mais vezes do que eu gosto de me lembrar. Quando estava mentalmente estável, participava em iniciativas no âmbito da inclusão: ajudava na sopa dos pobres, distribuía mantimentos e roupas pelos outros pobres e sem-abrigo e fazia o que podia para se manter ocupado.
Quando conseguia reunir algumas moedas, seguia quase em modo piloto automático para a tasquinha a qual dava o nome de Faculdade de Letras (antes de fugir de Bagdade, os seus estudos eram da área das Letras). Depois disso, não demorava muito a perder a compostura e a revoltar-se, demasiadas vezes, contra aquelas pessoas que lhe davam um lugar onde dormir, sempre que ele aparecia lá em casa. Algures na sua cabeça, surgia a ideia que nós não o queríamos lá e que era um fardo. Pedíamos-lhe calma e que ficasse. Saia porta fora e ficávamos dias e dias sem o ver. Voltava sóbrio, pedia desculpa e um novo ciclo começava.
Quando lhe pedi que me mostrasse o que fazia no dia-a-dia levou-me aos sítios que costumava frequentar: almocei com ele numa cozinha solidária, destinada a pessoas com poucas ou nenhumas possibilidades económicas; apresentou-me a sua amiga peixeira no mercado e o seu amigo toxicodependente explicou-me porque é que as prostitutas não se deixavam ver durante o dia.
O único momento em que eu senti que o meu amigo de Bagdade queria voltar à sua terra Natal foi quando, durante um filme que víamos, surgiu uma personagem com o mesmo nome que uma sobrinha sua. Perguntei-lhe onde estava a rapariga. Respondeu-me o seguinte: “não sei se está viva ou morta”.
Querido amigo, espero que a tua sobrinha esteja bem. Espero também que tenha a tua criatividade e a tua capacidade de sorrir (quase) todos os dias.